A data que marca o nascimento oficial do cinema é o dia 28 de dezembro de 1895, quando na França, os irmãos Lumière projetaram, pela primeira vez, para uma plateia, uma rápida sucessão de uma série de fotografias. E a partir de então, o mundo pode imaginar mais, sonhar mais e assistir admirado cenas do dia-a-dia, histórias fantasiosas (de mundos inexistentes) ou possíveis sobre o presente, passado e futuro.

Apesar de não existir os meios de comunicação que hoje permite que todos fiquem sabendo de tudo em qualquer lugar do mundo, o cinema em pouco tempo alcançou fama em lugares longínquos e diferentes. Como disse acima, a data-símbolo foi a da projeção dos irmãos Lumière mas simultaneamente, em diferentes lugares do mundo, outros inventores estavam projetando máquinas capazes de animar as fotografias ou registrar movimentos contínuos.

Desde então, as tentativas de melhorar a qualidade dessas imagens nunca mais parou e o maravilhamento pela sétima arte nunca deixou de encantar crianças, jovens e adultos. Apesar de inicialmente o cinema ter sido pensado como documentarista (os filmes eram praticamente registros de cenas corriqueiras), não tardou muito para que descobrissem que a maior potencialidade dele seria contar histórias e ir além da imaginação. Assim será outro francês, Georges Méliès, que em 1896 começa a experimentar técnicas diferentes que levaram o cinema a um novo patamar: o cinema narrativo. E assim, Méliès passará a ser considerado o pai do cinema narrativo após começar a realizar filmes que levarão as pessoas além da imaginação (e até mesmo a Lua*).

Na Itália, em 1896, o cinematógrafo (assim era chamado inicialmente) fica popular e se espalha rapidamente por toda a península. E aos poucos os registros documentais de momentos do cotidiano (registros de praças ou saída dos operários das fábricas ou a chegada dos trens nas estações)** começam a deixar espaço para a construção de narrativas complexas.

 

A grandiosidade do cinema mudo italiano começou com a projeção de histórias clássicas, da commedia dell’arte, mitológicas e momentos históricos em meio a cenografias gigantescas, filmes cômicos, dramáticos ( “O conde de Montecristo” (1908), de Luigi Maggi, “Giordano Bruno” (1908), de Giovanni Pastroni;  “Francesa de Rimini” (1911), de Ugo Fallena, “Rigoletto”(1910), de Gerolamo Lo Savio; entre outros). Os filmes italianos ficam famosos e em pouco tempo passam a serem exportados e tornam-se símbolos de grandiosidade, de qualidade, de criatividade e ganham o mundo.

É assim que surgem centenas de casas de produção por todo o país: Cines, Milano Film, Itala Film, Caesar Film, Società Anonima Ambrosio, Partenope Film, Pasquali Film entre outras tantas que duravam somente o tempo da realização de um filme.

Assim, os gêneros começam a se diversificar. A CINES inaugura o gênero histórico com “A captura de Roma (1905) (“La presa di Roma”, conhecido também como “Bandiera bianca” e “La Breccia di Porta Pia”), de Filoteo Alberini. Infelizmente dos 10 minutos do filme, hoje restam somente 4 minutos. Antes, os filmes costumavam ter 40/60 metros enquanto esse tinha 250 metros. As histórias começam a ganhar mais espaço/tempo para serem contadas com mais detalhes.

 

 

Nos anos 10 (1910-1919), uma época áurea do cinema mudo italiano, começamos a ver traços do divismo (atores que adquirem fama notória) que serão precursores da importância que o rosto dos atores adquirirão na história do cinema mundial. Algumas atrizes que fizeram parte do imaginário do cinema mudo italiano são: Lyda Borelli, Francesca Bertini, Eleonora Duse, Pina Menichelli, Rina De Liguoro, Leda Gys, Hesperita, Vittoria Lepanto, Italia Almirante Manzini. Mas também os atores fizeram parte desse fenomeno do divismo, muitos provenientes do teatro. Alguns deles são Amleto Novelli, Ermete Novelli, Emilio Ghione, Ermete Zacconi, Febo Mari, Ubado Maria del Colle, Carlo Campogalliani, Mario Bonnard e Bartolomeo Pagano.

Nesses anos de pré-primeira guerra mundial, os filmes históricos perdem seu caráter pedagógico e vemos a passagem para gênero “kolossal”, que unido ao período histórico-político italiano (na época a Itália estava sob a direção de Giovanni Giolitti), quer enaltecer principalmente o passado glorioso e poderoso do Império Romano, e enaltecer o caráter da Itália como potência internacional, resgatando o orgulho patriótico do país. Vale lembrar que esse período foi anterior à ascensão ao poder do fascismo italiano.

“Os últimos dias de Pompei” (1913), de Mario Caserini, têm inovativos efeitos especiais. Enrico Guazzoni, pintor e cenógrafo, foi um diretor que soube aproveitar o potencial espetacular e realizou “Quo Vadis?” (1913), “Cajus Julius Caesar”( 1913) e “Marcantonio e Cleopatra” (1913). Outros diretores que contribuíram para a expansão do gênero foram Emilio Ghione, Febo Mari, Carmine Gallone, Giulio Antamoro entre outros.

Mas foi Giovanni Pastrone que fez historia ao procurar soluções cenográficas inéditas. E foi assim que após realizar o brilhante “La caduta di Troia”(1911), chegou ao ápice com o espetacular “Cabiria” (1914), com 168 minutos, mas com 20 minutos a menos na versão cinematográfica. Ao usar inovações técnicas como o uso do travelling e do primeiro plano, junto a uma trama complexa e ao uso expressivo de maquiagem, iluminação e cenários grandiosos, inspirou diretores a realizarem filmes como “Intolerância”(1916) de David W. Griffith e “Metropolis” (1927), de Fritz Lang. 

 

Depois de “Cabiria, o gosto do público começa a mudar e o gênero se desgasta. Foi assim que as chamadas “cômicas” ganharam público ao levar à telona historias de personagens cômicos que atraíam o público ao falar das aspirações, medos e incertezas da sociedade. Assim, podemos citar cômicos como André Deed, conhecido como Cretinetti, protagonista de muitos curtas da Itala Film; mas também Marcel Fabre (Robinet), Ernesto Vaser (Fricot) e o famoso Ferdinand Guillaume, conhecido pelo nome artístico Polidor. Vale lembrar que as “cômicas” italianas são contemporâneas às cômicas americanas, estreladas por Charlie Chaplin e Buster Keaton, mas diferentemente dessas, inserem seus protagonistas de outra forma na sociedade e portanto, não podem ser comparadas ideologicamente.

Já em tempos de avanguardia, é obrigatório lembrar que em 1916, como o movimento futurista, temos ainda o manifesto da cinematografia futurista que via o cinema como a forma expressiva capaz de explorar todas as tendências experimentais da época. Contudo, foram poucos os filmes desse movimento, e muitos foram perdidos como aqueles Bruno Corra e Arnaldo Ginna, pintados nas películas. Podemos citar como obras significativas como “Vida futurista”(1916), de Arnaldo Ginna, na qual tenta colocar em prática algumas das teorias expostas no Manifesto, e “Thais” (1917), de Anton Giulio Bragaglia, baseada no seu tratado estético Fotodinamismo futurista (1911).

São muitas coisas que contribuíram para a redução drástica da produção cinematográfica italiana na década de 20: o final da primeira guerra mundial (1918) e as dificuldades internas vividas no pós-guerra,  a ascensão do partido fascista ao poder (1922), o crescimento da produção e qualidade do cinema hollywoodiano que passou a dominar o mercado internacional, a falta de renovação geracional de autores, diretores e temas que proporcionassem ideias novas para acompanhar o momento novo do cinema e do mundo e, finalmente, o advento do filme sonoro (isto é, o som sincronizado ao cinema) que mudou a historia do cinema no mundo todo. O primeiro filme sonoro americano foi “O cantor de Jazz”, de 1927, enquanto que na Itália, o primeiro foi “A canção de amor” (1930), de Gennaro Righelli.

                                   Uma cena do 1º filme sonoro italiano “A canção do amor” com as atrizes Mercedes Brignone e Dria Paola

 

A partir daí, o cinema passa por uma revolução completa da sua linguagem: os atores terão que aprender uma nova forma de interpretação, visto que no cinema mudo as suas expressões eram essenciais para o andamento e compreensão das historias; os textos que eram limitados a didascalia e fotogramas que indicavam o andar das historias não seriam mais essenciais para a compreensão; a orquestra presente nas salas de projeção não era mais necessária para dar o acompanhamento/comentário musical essencial para a criação da atmosfera; e principalmente as salas cinematográficas deveriam ser adaptadas para o sonoro.

Tudo tinha mudado e o cinema mudo tinha ficado para trás, cristalizado na memória das pessoas como um período de descobertas, experimentações infinitas, que aos poucos foi abrindo espaço para que o futuro chegasse, para que o moderno finalmente se apresentasse. O cinema ganhou voz e num futuro ganharia também cores…

 

E nada mais seria como antes… e nada mais foi como antes… e nada nunca será como antes…

 

 

21/04/2020

 

 

Fernanda Stucchi 

Mestre em Cinema, televisão e Produção Multimídia pela Università di Bologna

Mestre em Língua, Cultura e Literatura Italianas pela Universidade de São Paulo

Curadora do Cine Memória Itália, de Ribeirão Preto

Professora de italiano, apaixonada pela cultura italiana

 

 

*”Viagem à Lua” (1902) – Georges Méliès
**Alguns registros famosos de Vittorio Calcina como a visita a Monza pelo Rei Umberto I e pela rainha Margarida de Savoia, filmada sob encomenda pelos irmãos Lumière e o antigo documentário italiano: “Sua Santidade Papa Leone XIII” (1896), com um breve plano do Papa Leone XIII nos Jardins Vaticanos.

Registros de Italo Pacchioni: Arrivo del treno alla Stazione di Milano (1896), La battaglia di neve (1896), la gabbia dei matti (1896), Ballo in famiglia (1896), Il finto storpio al Castello Sforzesco (1896) e La Fiera di Porta Genova (1898).

 

 

Bibliografia

 

Gian Piero Brunetta, “Cinema muto italiano”, Storia del cinema mondiale, vol. III, Einaudi, Torino, 2002.

AAVV, I comici del muto italiano, in Griffithiana, n. 24-25, 1985.

https://www.ilcinemamuto.it/betatest/filmografie/i-comici/

https://it.wikipedia.org/wiki/Cinema_italiano